Vazio Existencial e o Self: A Jornada Junguiana para a Autonomia

Vazio existencial

Vazio existencial pode aparecer sempre que o indivíduo se sente perdido, alienado, e esquece quem é. E nesse momento uma urgência o domina: a de preencher o vazio que se instala. Essa busca desesperada por sentido não é isolada; ela ressoa com os temas centrais da psicologia analítica de Carl Gustav Jung. Reconhece-se que o que se chama de neurose moderna é, em essência, o sofrimento da psique que se desconectou de seu centro organizador, o Self [1].

É como se o indivíduo estivesse montando um quebra-cabeça e percebesse que a peça central está faltando. Ele tenta encaixar substitutos — um pedaço de consumo, um fragmento de poder — mas o buraco permanece. A frustração ensina: só a peça original, o Self, pode preencher a lacuna existencial.

As Rodas da Alienação: Onde o Indivíduo Busca o Preenchimento

Observa-se uma analogia poderosa sobre as formas que o indivíduo encontra para mascarar o vazio existencial:

“Também se pode ver da seguinte maneira, existem duas rodas que funcionam como substitutas para o vazio. A primeira é maior e lá se encontra grande maioria das pessoas, a força propulsora é o consumo, dívidas, e trabalho. A segunda é menor e é movimentada pelo dinheiro, acúmulo, e poder. Ambas giram cada vez mais rápido com o passar do tempo, aumentando proporcionalmente o desgaste.”

Ao observar essas “rodas”, constata-se a urgência — no indivíduo e nos outros — de encontrar um significado. Vê-se que a busca desesperada é, na verdade, uma tentativa de recuperar a conexão que foi perdida consigo mesmo.

Jung via essa tentativa de preenchimento externo como uma manifestação da Persona — a máscara social que o indivíduo usa para se relacionar com o mundo [2]. O psicólogo e analista junguiano Waldemar Magaldi Filho, do IJEP, comenta que a ansiedade, por exemplo, é uma expressão do mal-estar em função do desejo de preencher a falta ou o vazio existencial. Quando o indivíduo se identifica demais com a Persona (o trabalhador incansável, o consumidor de sucesso, o detentor de poder), ele se distancia do seu verdadeiro Self. O sucesso externo, o acúmulo e o consumo, por mais grandiosos que sejam, falham em preencher o buraco interno, pois não abordam a raiz do problema: a desconexão com a totalidade da psique [3].

A Busca pelo Self: O Processo de Individuação

Percebe-se que quanto mais alienado o indivíduo estiver, menor será a sua resistência, e com maior facilidade será arrastado pela onda das tendências, afastando-se cada vez mais dos seus verdadeiros propósitos.

O caminho que se deve escolhe percorrer é o da estrada interior em busca do “si mesmo” perdido. E através desse encontro e união, permite-se que aconteça o verdadeiro preenchimento da alma.

Para Jung, o “si mesmo” perdido é o Self, o arquétipo da totalidade e o centro regulador da psique [4]. A jornada para reencontrá-lo é o que ele chamou de Individuação.

“A individuação é o processo de se tornar um ser singular, e na medida em que por ‘individualidade’ entendemos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, tornar-se indivíduo implica tornar-se o próprio Self.” — Carl Gustav Jung

A Individuação não é um processo egoísta, mas sim a busca pelo conhecimento de si mesmo, integrando os aspectos conscientes e inconscientes da personalidade [5]. Entende-se que essa é a única forma de preencher a lacuna existencial, pois a peça perdida do quebra-cabeças é, na verdade, a totalidade de quem se é.

Autonomia e Liberdade: O Fruto da Conscientização

Sentidos e significado de existir irão imergir para o mundo externo de acordo e alinhado com um propósito maior.

Agora, é o sujeito que vive a vida, e não a vida que o vive”. Ele se torna responsável pelo seu existir, e desfruta a verdadeira completude e liberdade do ser…

O resultado da Individuação é a autonomia. Ao invés de ser arrastado pelas “ondas das tendências” (as rodas do consumo e do poder), o indivíduo, que se encontra com o Self, passa a ser o agente de sua própria vida. O sentido da vida não é mais buscado fora, mas emerge de dentro, alinhado com um propósito maior. Essa é a verdadeira liberdade e completude que se alcança.

Referências

[1] Vazio Existencial na Psicologia Analítica:O sofrimento da psique que não encontrou o seu sentido. (Fonte: Dominus – O QUE É O VAZIO EXISTENCIAL? A chamada…)

[2]O Conceito de Persona em Jung: A máscara social que pode levar ao distanciamento do Self. (Fonte: VAZIO EXISTENCIAL – O que significa? | Carl Jung)

[3]Sucesso Externo vs. Preenchimento Interno:A falha do sucesso material em preencher o vazio interior. (Fonte: VAZIO EXISTENCIAL – O que significa? | Carl Jung)

[4]O Self (Si-mesmo): O centro da psique e o princípio organizador da personalidade. (Fonte: A Importância do Arquétipo do Selfpara Carl Jung)

[5]O Processo de Individuação: O caminho para se tornar um ser único e integrar o Self. (Fonte: Jung, o processo de individuação e a busca pelo sentido…)

2 comentários em “Vazio Existencial e o Self: A Jornada Junguiana para a Autonomia”

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